Judeia e Judeus.

Judeia e Judeus.

Mensagempor zézen » Quinta-Feira 15 Janeiro 2009, 10:30

Sobre a "Conspiração Mundial Judaica"...

Houve aqui comentários sobre a possibilidade de o Ricardo não estar a brincar quando escreveu a expressão "conspiração judaica". Julgo que quem lê este blog regularmente percebe imediatamente que o Ricardo estava a gozar, a exagerar uma coisa que precisa de ser discutida, porque me parece que os media consideram "os judeus" tabu. Por exemplo, aqui nos EUA há um grupo de fanáticos que desata a chamar "anti-semita" a quem disser mal de um judeu qualquer, por uma razão qualquer. E eu acho que este tabu é, como todos os tabus, inimigo do raciocínio lógico.

Primeiro que tudo acho que fazíamos bem em concordar que os judeus são seres humanos iguaizinhos a todos os outros e que, embora uma minoria minúscula entre eles se comporte como se tivesse sido escolhida por deus, há fanáticos entre todas as religiões, como os há entre os agnósticos e entre os ateus. Alguns muito mais idiotas, diria eu, do que os judeus messianicos mais extremistas.

Segundo acho importante separar os judeus de extrema-direita das pessoas que se vêem a si próprias como judias pelo mundo fora. Como disse alguém aqui na lista, os judeus americanos (que são aliás menos de 2% da população) votaram em massa em Gore e em Kerry, e agora em Obama. Aliás, se todos os não judeus do planeta demonstrassem o amor e o respeito que muitos judeus americanos têm pela educação, pela ciência e pela cultura, estavamos muito melhor do que estamos, governados por cristãos da mais diversa pena e pêlo.

Se pensarmos bem, uma das raízes mais importantes do anti-semitismo na Europa foi a reacção da aristocracia rural aos ideais do Renascimento e ao poder dos comerciantes instruídos, que destruíram o mundo medieval e transferiram o poder dos campos e dos castelos para as cidades e os palácios. Alguns destes homens eram judeus e as pessoas simples preferem ter um inimigo bem definido do que argumentar ideias e tentar verbalizar sentimentos, alguns inconfessáveis, aliás, por serem mesquinhos e invejosos.

Dito isto, acho importante sublinhar que os grupos de pressão pro-israelitas (de extrema-direita) são extraordinariamente eficazes e têm um peso desproporcionado, indecentemente desproporcionado, na política americana. A situação miserável em que Condoleeza se meteu é apenas uma de uma sucessão de situações miseráveis em que os políticos americanos se metem cada vez que querem tentar resolver o problema de Israel com justiça e imparcialidade.

Os grupos de pressão da extrema-direita pro-israelita (cheios de ateus e de não judeus, aliás) são um problema gravíssimo para a paz no mundo. Acho que lhes podemos chamar "a conspiração mundial judaica" por piada, sabendo que estamos a ser profundamente injustos. Mas podemos culpá-los por serem poderosos? Por fazerem o trabalho de casa a horas?

Não será mais justo culpar as classes políticas americana e europeia por serem uns hipócritas, uns cobardes e uns preguiçosos sem coluna vertebral, incapazes de fazerem frente aos ricos e aos poderosos?

Generalizando perigosamente, os cristãos adoram acreditar no Pai Natal, em milagres e em anjos, e respeitam naturalmente as hierarquias: os católicos porque acham que o pensamento crítico e independente dissolve a cola social, os protestantes porque acreditam que os ricos são ricos pela graça de deus. "Os judeus" acham a educação uma coisa valiosa e respeitável. Por exemplo: embora "os judeus" sejam menos de 2% da população americana, os estudantes que se indentificam como sendo judeus são cerca de um terço dos alunos em universidades como Harvard, George Washington, U. Penn., NYU, Columbia, Emory, Tulane, etc.

O nazismo europeu teve em si um factor especialmente repugnante para mim, no sentido em que foi uma vitória nietzschiana dos fracos e dos broncos sobre uma minoria tradicionalmente mais instruída, que deu ao mundo um número desproporcionado de médicos, de físicos, de químicos, de historiadores, de antropólogos, de músicos, de pintores, de dramaturgos e de filósofos.

Mas acima de tudo, parece-me inacreditável que a palavra "judeu" esteja hoje conotada com a extrema-direita e com a brutalidade israelita. A esmagadora maioria dos judeus quer é viver em paz e ser feliz, como o resto do mundo.

Israel está cheio de pessoas de bem, que condenam a brutalidade racista da direita e a quem a brutalidade assassina dos extremistas palestinianos, que usam crianças mortas como adereços publicitários, não permite qualquer espaço de acção.

Israel é a Africa do Sul da próxima década. Mas não devemos demonizar os Sul Africanos brancos todos, como se as pessoas fossem iguais e pudessem agir livremente, de acordo com as suas consciências, independentemente das circunstâncias.
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