O fim do PREC

O fim do PREC

Mensagempor Tovi » Domingo 25 Novembro 2007, 11:38

Lembram-se?... :arrow: Imagem

A revolução em directo – No dia 25 de Novembro de 1975 (ano e meio após o derrube do regime fascista em 25Abr74) o capitão Duran Clemente, segundo-comandante da Escola Prática de Administração Militar, falava em directo na televisão, explicando as teses da facção mais esquerdista das forças armadas. De súbito, começa a dizer que lhe estão a fazer sinais, pois parece que há problemas técnicos, anunciando que voltará ao ar quando tudo estiver resolvido. A imagem do oficial em camuflado é substituída pela de Danny Kaye, no filme “O Bobo da Corte”.
http://tovi.blogs.sapo.pt
"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Avatar do Utilizador
Tovi
Resmungão
Resmungão
 
Mensagens: 2577
Registado: Terça-Feira 9 Outubro 2007, 21:28
Localização: Porto - Portugal

Re: O fim do PREC

Mensagempor Viriato » Domingo 25 Novembro 2007, 12:59

Nessa data, eu já estava no exilo, e não assisti a esta segunda libertação da Pátria ! :lol:
Imagem
Sou capaz do melhor como do pior, mas no pior, sou eu o melhor !
Avatar do Utilizador
Viriato
Manda chuva
Manda chuva
 
Mensagens: 3077
Registado: Segunda-Feira 8 Outubro 2007, 16:38
Localização: Cidade Luz

Re: O fim do PREC

Mensagempor Reboredo » Domingo 25 Novembro 2007, 14:23

Viriato escreveu:

Nessa data, eu já estava no exilo, e não assisti a esta segunda libertação da Pátria !



A situação que vivem hoje os portuguêses e que tu tanto criticas é motivada pela tua fuga. "NESSA DATA" a direita voltou ao poder e ficou.

Agora compreendo melhor o teu arrependimento quando dizes: "é preciso fazer outro 25 de Abril"

O lado pelo qual combatemos é motivado pela nossa origem ou pela nossa consciência. Ou fazemos parte do proletariado ou somos seus aliados. Tu manifestas o teu desagrado contra os cheminot da CNCF. É o teu lado inconsciente a aplaudir o Sarkozy.


Reboredo
Sempre sempre não, mas sempre sempre até é bom.
Avatar do Utilizador
Reboredo
Furriel
Furriel
 
Mensagens: 1175
Registado: Quinta-Feira 11 Outubro 2007, 18:23
Localização: Brx.

Re: O fim do PREC

Mensagempor Tovi » Domingo 25 Novembro 2007, 21:49

Sem qualquer sombra de dúvida que o 25 de Abril (de 1974) e o 25 de Novembro (de 1975) provocaram modificações irreversíveis na história recente de Portugal e todos aqueles que, como eu, viveram estes movimentos militares sabem bem ser ainda necessária uma maior distância no tempo para se fazer uma avaliação objectiva e independente dos factos. Pelo menos é assim que eu penso.
http://tovi.blogs.sapo.pt
"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Avatar do Utilizador
Tovi
Resmungão
Resmungão
 
Mensagens: 2577
Registado: Terça-Feira 9 Outubro 2007, 21:28
Localização: Porto - Portugal

Re: O fim do PREC

Mensagempor zézen » Domingo 25 Novembro 2007, 22:50

Viriato Escreveu:Nessa data, eu já estava no exilo, e não assisti a esta segunda libertação da Pátria ! :lol:


Cuidado com o Ortografista :lol:
a.o.s., foi, é, e serà sempre, um F.D.P.
Avatar do Utilizador
zézen
tem opinião sobre tudo, e sobretudo opinião
tem opinião sobre tudo, e sobretudo opinião
 
Mensagens: 5151
Registado: Sexta-Feira 12 Outubro 2007, 17:10
Localização: Cidade cinzenta

Re: O fim do PREC

Mensagempor Tovi » Terça-Feira 27 Novembro 2007, 09:44

Ainda sobre O fim do PREC... O nosso amigo «Reboredo» colocou no meu blog este interessante texto:

Meu caro Tovi, avaliação melhor que aquela que fazem os intervenientes nos acontecimentos.


O golpe militar em preparação

O 25 de Novembro foi um golpe militar inserido no processo contra-revolucionário. A sua preparação começou muito antes das insubordinações e sublevações militares do verão quente e de Outubro e Novembro de 1975 .

Talvez que as mais esclarecedoras informações dessa preparação em curso muitos meses antes de Novembro sejam as que dá o comandante José Gomes Mota no seu livro, esquecido ou guardado nas estantes, A Resistência. O Verão Quente de 1975 , Edições jornal Expresso , 2ª ed., Junho de 1976.

Segundo José Gomes Mota, o golpe foi preparado pelo «Movimento», que define por ser contra o que chama «os dissidentes», — nomeadamente «os gonçalvistas» e o PCP. Fala em «novas estruturas reorganizadas». Diz que o «Movimento» deveria ter presença activa no Conselho da Revolução ( ob. cit. , p. 93) e aceitar a «manutenção formal dos órgãos de cúpula do Movimento — Conselho da Revolução e Assembleia do MFA» ( ob. cit. , p. 95).

O «Movimento» chamava a si a preparação e decisão do golpe militar, mas, «preservando e garantindo a legitimidade revolucionária do Presidente da República» ( ob. cit. , p. 94). Segundo José Gomes Mota, a cúpula efectiva era o «Movimento», que dispunha de dois grupos dirigentes.

Um «militar», «inicialmente constituído por Ramalho Eanes, Garcia dos Santos, Vasco Rocha Vieira, Loureiro dos Santos, Tomé Pinto e José Manuel Barroso». A sua «tarefa» principal era a «elaboração de um plano de operações» ( ob. cit. , p. 99), tarefa que «cumpriu rigorosamente», tendo «para isso muito contribuído a liderança de Ramalho Eanes» ( ob. cit. , p. 100).

Outro «político», de que faria parte o «Grupo dos Nove», «veio a desempenhar o papel de um verdadeiro estado-maior de Vasco Lourenço», que «assumira a chefia do Movimento» ( ob. cit. , p.100).

O livro encerra muitas contradições e obscuridades sobre o «Movimento». Diz que «a iniciativa [de um confronto militar] teria de partir sempre dos «dissidentes» ( ob. cit. , p. 93), que o «Movimento» tinha por objectivo «evitar qualquer possibilidade de uma guerra civil» e a criação da «Comuna de Lisboa» ( ob. cit. , p. 94). Mas o facto, que importa sublinhar, é a revelação de um efectivo centro político-militar a preparar um golpe ao longo do verão quente .

Melo Antunes, por seu lado, fala da acção militar do «Grupo dos Nove» na preparação para o golpe: «Além das acções legais ou semilegais a que deitámos mão para obter a supremacia militar, também desenvolvemos acções clandestinas para nos prepararmos para uma confrontação que eu julgava inevitável. [...] Tínhamos uma organização militar em marcha. » ( Vida Mundial , Dezembro de 1998, p. 50.)

A preparação do golpe «para pôr fim a uma situação insustentável» vinha pois de longe.

Foi ulteriormente dado a conhecer que, no verão quente , muitos Comandos «deixaram os postos civis e se alistaram de novo para estarem operacionais».

A colocação de Pires Veloso no Norte em Setembro de 1975, substituindo Corvacho, que Freitas do Amaral intitula de «famigerado Brigadeiro» «afecto ao PCP» ( O Antigo Regime e a Revolução , ed. cit., pp. 245 e 406), fazia parte dessa preparação. Não foi por acaso que, no 25 de Novembro, vieram ajudar o golpe várias Companhias do Norte, que depois levaram os presos para Custóias.

O papel de Ramalho Eanes é sublinhado nas valiosas informações que, no 20º aniversário do golpe, revela Vasco Lourenço, designado em 22 de Novembro e confirmado a 24 Comandante da Região Militar de Lisboa em substituição de Otelo Saraiva de Carvalho.

Segundo Vasco Lourenço, Eanes , « responsável por organizar o plano de operações», «desempenhou papel fundamental» , e «acabou por ser o principal comandante operacional », não cedendo às pressões dos militares mais radicais (artigo «Não aconteceu o pior», in Revista História , nº 14, Novembro de 1995, pp. 37-38).

Também Jaime Neves, sublinhando que se tratou de «um golpe contra o PCP», confirma o papel de Eanes: « Conspirávamos [...] e o Eanes [...] passou a ser ele a coordenar as coisas. » (Entrevista à revista Indy , 21-11-1997.)

O papel de Eanes expressou-se aliás publicamente, logo após a vitória do golpe, em factos tão significativos como a sua ascensão a Chefe do Estado-Maior do Exército (interino em 27-11-1975 — posse em 9-12-1975) e ulteriormente a Presidente da República eleito.

Está mais que provado, assumido e confessado, que se tratou de um golpe militar contra-revolucionário há muito em preparação num turbulento processo de arrumação e rearrumação de forças.

Cerca das 10 horas da própria manhã do dia 25, prontos para desencadear as operações, os conspiradores — numa diligência conjunta do «Grupo dos Nove», Eanes, Jaime Neves e oficiais dos Comandos da Amadora — procuraram e conseguiram obter a aprovação e cobertura institucional do Presidente da República, Costa Gomes (entrevista de Costa Gomes a Maria Manuela Cruzeiro, in Costa Gomes, o Último Marechal , Editorial Notícias, 3ª ed., Lisboa, 1998, p. 357; e in revista Indy, 27-11-1998).

Para a compreensão do golpe e do que dele resultou é necessário ter em conta que, na sua preparação, participaram forças muito diversas associadas num complexo enredo de alianças contraditórias.

Todas estavam aliadas para pôr fim à influência do PCP e ao processo revolucionário, restabelecer uma hierarquia e disciplina nas forças armadas e extinguir o MFA insanavelmente em vias de destruição pelas suas divisões e confrontos internos. Mas, como resultado do golpe relativamente ao poder político e às medidas concretas a tomar, havia importantes diferenças.

Na grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada, participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, que visavam a instauração de um nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente a ilegalização e destruição do PCP. Participava também o Grupo dos Nove, de que alguns membros, receosos da possibilidade de saírem vitoriosas do golpe as forças mais reaccionárias, pretendiam a continuação de um regime democrático.

Da parte dos fascistas e neofascistas, a ilegalização e repressão violenta do PCP era, não apenas um desejo mas um objectivo que pretendiam fosse alcançado no imediato.

As organizações terroristas deviam também participar. Paradela de Abreu diz que «sempre tinha estado convencido de que o Plano Maria da Fonte só deveria ser desencadeado no seu «programa máximo — um programa de violência ou de guerra — em ligação com um golpe militar » ( Do 25 de Abril ao 25 de Novembro , ed. cit., p. 204), intervindo com «muitos grupos capazes de executar quem quer que fosse» ( ob. cit. , p. 197). Na noite de 25 de Novembro foi-lhe comunicado para não avançar com o «Plano» ( ob. cit. , p. 208).

Este objectivo de desencadear uma vaga repressiva de extrema violência já na altura era abertamente proclamado nas campanhas anticomunistas. E muitos anos volvidos, mais claramente o dizem, nas suas confissões, alguns dos participantes.

Jaime Neves, num jantar em sua homenagem realizado em Janeiro de 1996, declarou que « o “problema” seria resolvido “muito simplesmente com a prisão do líder do PC”, Álvaro Cunhal » ( Público , 11-1-1996). O seu estado de espírito é transparente, ao dizer que, se «havia uma manifestação realizada pelo Partido Comunista, eu recusava-me a ir com a tropa para a rua se não fosse para prender o dr. Álvaro Cunhal» (entrevista ao Semanário , 26-11-1983).

Alpoim Calvão, operacional nº 1 da rede bombista, não deu por definitivamente derrotada a extrema direita depois do 25 de Novembro. Num encontro com Pinheiro de Azevedo (então Primeiro-Ministro), solicitou que fosse permitido o regresso a Portugal de Spínola e de todos os spinolistas exilados. Não são conhecidos os termos em que colocou o problema. Pedido? Exigência? O que diz é que uma tal decisão seria «uma solução pacífica», porque, apesar do 25 de Novembro, « muitos queriam pegar em armas e vir por aí abaixo matar comunistas » (entrevista a Eduardo Dâmaso, publicada no seu livro A Invasão Spinolista , Círculo de Leitores, 1997, p. 98). É o que teriam feito, pelo que se vê, se tivessem sido eles a impor o resultado.

No próprio dia 25, não estando ainda certo como o golpe iria terminar política e militarmente, todos envolvidos num objectivo geral comum anticomunista, cada qual pretendia que o resultado correspondesse aos seus próprios objectivos.

Mário Soares e o PS tinham representado um papel importante na acção política preparatória do 25 de Novembro. Mas o golpe do 25 de Novembro não foi o que projectaram. Nenhum dos seus três objectivos centrais imediatos se concretizou. Nem a liquidação da dinâmica revolucionária e das suas conquistas. Nem o esmagamento militar do PCP, do movimento operário e da esquerda militar, nem, como resultado do golpe, ser Soares o vencedor, aquele que teria salvado a democracia de um golpe e de uma ditadura comunista e que por isso assumiria naturalmente de imediato, no poder do Estado, as responsabilidades daí decorrentes. Tal operação foi tentada mas falhou. Não é por isso exagero dizer-se que Soares ficou de fora do 25 de Novembro .

Os fascistas e neofascistas, participantes na preparação e no golpe, não conseguiram tão-pouco o que pretendiam.

Quanto ao «Grupo dos Nove», Melo Antunes (tal como Eanes e Costa Gomes) defendia uma solução política da crise. Indo no dia 26 à televisão declarar que «a participação do PCP na construção do socialismo era indispensável», deu importante contribuição para a defesa da democracia.

Como na altura considerámos, essa atitude expressava um objectivo político e uma apreensão: o objectivo de assegurar um regime democrático para o que considerava indispensável o contributo do PCP e a apreensão de que, se a extrema direita desencadeasse a repressão contra o PCP, ele e seus amigos acabariam também por ser reprimidos.

Poucos dias depois, o chefe do EMGFA, general Costa Gomes, enviou aos três ramos das Forças Armadas uma directiva na qual se afirmava que «só os militares [...] estão em condições de servir o projecto de construção da sociedade proposta pelo Movimento do 25 de Abril, sociedade onde não seja mais possível a exploração do homem pelo homem» ( Jornal de Notícias , 2-12-1975).

E, ao tomar posse como Chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 6 de Dezembro, Ramalho Eanes, então promovido a general, declarou como «objectivos políticos prioritários a independência nacional e a construção de uma nova sociedade democrática e socialista.» ( Jornal de Notícias , 7-12-1975)

(AC in A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril)
http://tovi.blogs.sapo.pt
"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Avatar do Utilizador
Tovi
Resmungão
Resmungão
 
Mensagens: 2577
Registado: Terça-Feira 9 Outubro 2007, 21:28
Localização: Porto - Portugal

Re: O fim do PREC

Mensagempor Tovi » Quarta-Feira 28 Novembro 2007, 19:49

Mais sobre O fim do PREC

O meu grande amigo «Reboredo» comentando um texto meu sobre “O fim do PREC” (ver citação do meu post anterior), colocou um interessantíssimo texto com passagens d’ A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril. E o que por lá se lê até poderá ser a verdade dos factos, mas para mim é muito mais importante o que me parece primordial para a compreensão do golpe (ou contra-golpe, como queiram chamar) do 25 de Novembro de 1975. E estou a referir-me à sempre esquecida e praticamente nunca falada passividade do Partido Comunista Português perante as movimentações militares contra os oficiais das Forças Armadas que gravitavam à volta da FUR (Frente de Unidade Revolucionária). Álvaro Cunhal apercebeu-se a tempo que só poderia sobreviver e aspirar a uma “transição para o socialismo” com uma constituição democrática e nunca fazendo a política de “terra queimada” dos grupos da extrema-esquerda. Não foi por acaso que o Major Melo Antunes veio dizer no fim destas acções militares que era imprescindível a participação do PCP na vida política portuguesa.
http://tovi.blogs.sapo.pt
"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Avatar do Utilizador
Tovi
Resmungão
Resmungão
 
Mensagens: 2577
Registado: Terça-Feira 9 Outubro 2007, 21:28
Localização: Porto - Portugal

Re: O fim do PREC

Mensagempor Viriato » Quarta-Feira 28 Novembro 2007, 20:01

http://www.correiomanha.pt/noticia.asp? ... =229&p=200

Entrevista: Jaime Neves
Não foi para isto que fizemos o 25 de Novembro

Jaime Neves coronel na reserva está desiludido com o País, afirma que não foi para isto que fizeram o 25 de Novembro e confessa que nesse dia, há 32 anos, queria ir mais longe nas operações militares que acabaram com o PREC. E revela que nunca mais falou com Otelo Saraiva de Carvalho

Correio da Manhã – Trinta e dois anos depois do 25 de Novembro, está desiludido com o que se passou até agora? Valeu a pena fazê-lo?

Jaime Neves – Confesso que estou desiludido. O País está mal. Estamos mal. Mas não estou arrependido, isso não. Não foi para isto que fizemos o 25 de Novembro. Mas voltava a fazer o 25 de Novembro. De resto, eu também fiz o 25 de Abril convicto. Eu vim de África em Dezembro de 1973. Sabia vagamente o que se passava e quando o Otelo me contactou eu disse-lhe logo que não valia a pena falar muito porque eu ia.

- Não hesitou?

- Sabe que eu tinha treze anos de África e dois de Índia. E estive em África antes de começar a guerra. E vi muita coisa que me desagradou. Em 1962 tive que vir a Lisboa na altura em que chegaram os prisioneiros da Índia. E era amigo de um deles que era mais velho do que eu três anos e a mão pediu-me para o ir buscar. E não é que quando eu cheguei ao cais não me deixaram entrar. Havia colunas de militares que me impediram o acesso.

- Foram muito maltratados pelo regime de então?


- Muito. Fui depois buscá-lo ao antigo Caçadores 5, às onze da noite, e levei-o eu. Tinham-lhes dado fardas novas para a viagem. Mas mal chegaram a Lisboa foram entregá-las. E deram-lhes aquelas fardas antigas cinzentas, com uma corda à cintura, um frio imenso. Uma camisa, umas calças e umas alpergatas sem meias.

- Isso afectou-o muito?

- Foram chamados de cobardes e outras coisas mais. E começou a germinar em mim um grande descontentamento sobre o que se passava cá e em África. Com muitos erros. Para mim o pior de todos foi não termos fomentado a emigração para lá. Era mais complicado uma pessoa ir para lá do que para a América ou outro sítio qualquer.

- Mas agora está desiludido porquê?

- A primeira grande desilusão começou logo a seguir ao 25 de Abril e até ao 25 de Novembro. Eu fiquei aqui em Lisboa com 500 homens, com duas companhias de caçadores, porque não havia mais e eu corria a tudo. Até levei os presos do Aljube para o Linhó quando pegaram fogo àquilo tudo. Oito de cada vez, porque eram muito perigosos. Em três dias despachámos tudo.

- Fazia de pronto-socorro?

- Era. E uns tempos depois pediram-me para os tirar de lá porque era uma cadeia de menores e andaram lá a perverter os miúdos todos. E estive na TAP quinze dias quando houve a greve do pessoal da manutenção. E eu bem perguntava se não havia Força Aérea. E a resposta era sempre a mesma: é preciso disciplina. E lá estive a dormir uma série de dias no chão.

- Foi um período complicado? De 1974 até 1975?

- Repare que o Regimento de Comandos foi criado em Julho de 1974. Deixaram que eu chamasse 300 convocados, pessoal que esteve comigo em África. Não imagina o que foi. Todos a falar de nós, muitos contra nós, políticos e não políticos. E eu andava ali a apagar incêndios. Mas sabe que os grandes responsáveis de tudo foram os militares esquerdistas, os comunas, como nós lhes chamávamos.

- Tentaram saneá-lo do Regimento de Comandos pelo menos uma vez.

- Foram dezassete. Eram bons. Dezasseis furriéis e um alferes. Numa noite tomaram conta dos soldados, fecharam o armamento todo e o Otelo, que chegou nessa noite de Cuba, foi ao Regimento. Falou um minuto e meio com dois deles e veio dizer que o “Jaiminho tinha perdido a confiança dos seus homens”.

- Essa frase ficou na história do PREC.

- Pois ficou. Sabe que os furriéis disseram-me depois que foram chamados ao Cunhal e que ele lhes garantiu todo o apoio caso o golpe falhasse.

- Três dias depois voltou.

- O Otelo viu que eles não queriam dar-lhe o Regimento. Era para o Partido Comunista. E chamou-me. Decidiu voltar a trás. E voltei. Choraram e tudo. Foi tudo preso. Mas o Otelo fez coisas inacreditáveis comigo. Apesar de saber que eu tinha a unidade mais forte do COPCON.

- Afinal quem é provocou o 25 de Novembro. O Partido Comunista? Ou o Grupo dos Nove?

- Não é a preto e branco. Houve movimentos de ambos os lados. A verdade está aí pelo meio. Não foi fácil. Foram tempos difíceis.

- Fala com Otelo ou não?

- Nunca mais falei com ele. Desde o 25 de Novembro. Nunca mais o vi. E até evito estar em sítios com ele.

- E que opinião tem de Costa Gomes?

- Bem, sabe que às vezes não gosto de falar disso. Mas o general Costa Gomes, por exemplo, foi condecorado em 1973 em Angola pela PIDE. Águia de ouro.

- Foi uma desilusão para si? Todo o papel que teve no chamado PREC?

- Tudo. Não é por acaso que tinha como alcunha entre nós “o rolha”.

- Essa ficou muito popular.

- O “rolha”.

- Mas no 25 de Novembro ficou ao lado dele, respeitou a cadeia de comando que acabava no general Costa Gomes, chefe de Estado e das Forças Armadas?

- Fiquei. Ele é que estava lá. Lembro-me que no dia 24 de Novembro foi lá uma delegação de oficiais, entre os quais ia eu, e se não me seguravam eu matava-o. Atirei-me a ele, agarrei-lhe o pescoço, até o matava. Porque ele não queria assumir nada.

- A responsabilidade pelas operações militares?

- Não queria. Só dizia que os outros eram coitadinhos e por aí adiante.

- Costa Gomes estava hesitante?

- Cheio de medo. Cheio de medo. Era mesmo o “rolha”. Lembro-me daquele caso do capitão cubano, o Peralta, que estava preso no Hospital da Estrela. E um dia os grupos de extrema-esquerda fizeram lá uma manifestação para o soltarem. E o Costa Gomes chamou-me e disse-me, em nome da Junta de Salvação Nacional, para ir lá e afastar aquela gente dali. Deitaram-se no chão para não nos deixarem passar. Mas sabe que eu exigi ao Costa Gomes que me escreve a ordem. Que eu podia usar os meios necessários para a missão.

- Por escrito?

- Sim. E ele, ao fim de quinze minutos, lá escreveu que eu podia usar os meios necessários, todos, mas só de fossem mesmo precisos. Veja lá um general dar uma ordem destas a um militar.

- E não lhe disse nada por estar a exigir a ordem por escrito?

- Perguntou-se se eu não confiava na palavra dele. E eu disse-lhe que não.

- Voltando ao 25 de Novembro. Acha que tinha condições para ir mais longe e não ter ficado, digamos assim, com o trabalho a meio?

- Não vou esconder que eu ia mais longe. E disse-lhe em Belém quando o Costa Gomes apareceu na televisão a acabar com tudo. Disse-lhe que não estava satisfeito. Eu ia mais longe. Não ficava por ali. Mas havia o comando, com o Eanes, o Firmino Miguel, o Tomé Pinto.

- Pires Veloso já afirmou que esse comando era uma ficção. O que contou foi o senhor em Lisboa, com os comandos, e ele no Porto, à frente da Região Militar do Norte. Concorda?

- Não é por acaso que há muita gente que não percebe porque é que o Eanes era o comandante das operações na Amadora. Nós tínhamos muitas reuniões com militares e até com civis, estávamos descontentes com o que se passava. O Eanes tinha sido saneado da RTP e foi mandado para casa. Só não foi preso por acaso. Nas reuniões o Eanes estava sempre disponível. Para escrever coisas, para fazer contactos. Sabia tudo. Foi por isso.

- E porque é que Pires Veloso diz isso?

- O Pires Veloso tem um ódio visceral ao Eanes. E quando ele escreveu o livro eu disse-lhe que, não morrendo de amores pelo Eanes, ele não podia confundir as coisas com o ódio que tem pelo Eanes.

- Também teve problemas com o Eanes?

- Deixou-me de falar.

- Porquê?

- Não vale a pena falar disso agora. Mas deixou-me de falar desde 1979.

- Antes das eleições presidenciais de 1980?

- Sim. Um dia perguntou-me se eu votava nele se ele fosse candidato contra o Soares Carneiro. Repare que nessa altura o melhor conselheiro do Eanes era o Soares Carneiro. Tinha experiência política, tinha sido secretário-geral de Angola.

- E o que é que respondeu a Eanes?

- Disse-lhe que depois de todas as conversas que tínhamos tido era evidente que votava no Soares Carneiro. E deixou de falar comigo.

- Em 1981, quando passou à reserva, já não falava com Eanes, Presidente da República. E como general Garcia dos Santos, chefe das Forças Armadas? Também teve problemas com ele?

- Em gíria militar...bem é melhor não dizer. Tem coisas boas, mas tem coisas muito más.

- Zangou-se com ele porquê?


- Zanguei-me com ele por várias razões. Mas sabe que depois da reeleição o Eanes não perdoou a ninguém que o não tinha apoiado. E a primeira coisa que fez foi, por exemplo, demitir o general Pedro Cardoso.

- Mal foi eleito?

- Foi o primeiro acto dele como chefe de Estado-Maior das Forças Armadas. Pedro Cardoso era um grande especialista em informações. E foi apoiante de Soares Carneiro, como eu.

- Os apoiantes de Soares Carneiro foram todos sacrificados?


- Não digo todas. Foram algumas.

- E porque foi para a reserva em 1981?

- Eu fui nomeado para o curso de oficiais generais. E disse ao Pedro Cardoso para me poupar. Ia para a reserva. Para o curso não ia. Porque a primeira vez que deixasse de lidar com tropas eu morria. O Pedro Cardoso saiu, entrou o Garcia dos Santos, eu fui de férias e esperei que me chamasse. Um dia soube que tinham nomeado já alguém para o Regimento de Comandos, o coronel Oliveira. O Garcia dos Santos mandou-me chamar e eu, que já sabia de tudo, pedi-lhe uma folha de 25 de linhas escrevi o meu pedido de passagem á reserva.

- E nunca mais falou com ele?

- Há dois anos, num encontro, o Eanes veio-me cumprimentar. Estendeu-me a mão, mas eu não estendi a minha. E depois veio o Garcia dos Santos dizer-me que tínhamos de fazer as pazes.

- Recusou?

- Disse-lhe que nunca tinha namorado com ele.

- Acabaram com os comandos em 1993 e anos depois, em 2002, voltaram a criá-los. Porquê?

- Olhe, ainda agora, em Beja, está decorrer a formação de uma companhia de comandos. Agora estão em Mafra. Já dizem que voltam para a Carregueira. Deixei o regimento em 1981, com boas instalações militares na Amadora. Fizeram para lá gabinetes, gastaram ali milhares de contos para instalar bidés para as senhoras. Eu acho que têm direito. Como os homens. Agora transformar um quartel genuíno com gabinetes, sinceramente. O futuro dos comandos não está definido. Mas são muito importantes. Veja o que fazem no Afeganistão, por exemplo. São uma tropa cada vez mais essencial nos tempos que correm e fundamentais para os objectivo estratégicos de Portugal.

- Quando foi do 11 de Março o general Spínola tentou que o senhor aderisse?

- Tentou falar comigo ao meio-dia, já depois de ter havido a confusão toda. Eu dizia que quando fosse preciso só precisava de quatro horas para estar pronto. Não era fácil ter um Regimento de Comandos na Cintura Industrial, vigiado constantemente, com manifestações quase todos os dias. Só tivemos uma de apoio, feita pelo PS da Amadora, liderado por Andrade Neves, o primeiro presidente da Câmara da Amadora. Nem o PSD fez nada. Quando fui saneado telefonaram-me a dizer que era do PSD da Amadora. Eu perguntei quem era, nunca tinham falado comigo. Desligaram.

- E o Spínola? Como é que falou consigo?


- Eram onze e quinze da manhã de 11 de Março quando entrei no Regimento. Havia uma grande agitação no País. Está lá o Almeida Bruno e diz-me que o Spínola queria fazer uma intentona. Tens uma missão que já devia ter sido cumprida. Eu também não concordo, mas vê lá. Chamei os oficiais superiores, majores, capitães e pedi ao Bruno para repetir o que me tinha dito. Estava nessa altura a acontecer o ataque ao Ralis. Ouvimos uns tiroteios. E como eu tinha uma grande consideração pelo coronel Morgado, que era o comandante da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, agarrei no telefone e perguntei-lhe o que se passava.

- Uma grande confusão, não?

- Disse-me que tinha ido lá o Monge mas que a Cavalaria não saía. Pouco depois do meio-dia tocou-me o telefone e era o António Ramos a dizer-me que o “velho” queria falar comigo. E a conversa foi esta: “Ó Neves, então como é que vai a tua missão?”. E eu respondi-lhe: “Mas qual missão?”. E lá me falou no Bruno e no Monge e que queria meter-se no helicóptero e chegar a Lisboa à frente da Cavalaria. E eu perguntei-lhe: “Qual Cavalaria? A Cavalaria não saiu”. Diz-me o Spínola: “Não me digas que fui enganado”. E a minha resposta foi rápida: “Passa a vida a ser enganado”. Foi de helicóptero mas para Espanha.

PERFIL

Jaime Alberto Gonçalves das Neves nasceu na freguesia de S. Dinis, concelho de Vila Real, em 24 de Março de 1936. Fez a escola primária na aldeia de S. Martinho de Anta e o liceu em Vila Real. Em 1953 veio para a Escola do Exército. Casado, com três filhos, começou a sua carreira militar em Mafra, em 1957. Nesse ano partiu para Moçambique de onde, como alferes, foi para a Índia. Em 1962, já como tenente, fez a primeira comissão de serviço em Angola, como capitão de uma companhia de Caçadores Especiais. Graduado em coronel em 1975, esteve à frente do Regimento de Comandos da Amadora até 1981.

António Ribeiro Ferreira
Imagem
Sou capaz do melhor como do pior, mas no pior, sou eu o melhor !
Avatar do Utilizador
Viriato
Manda chuva
Manda chuva
 
Mensagens: 3077
Registado: Segunda-Feira 8 Outubro 2007, 16:38
Localização: Cidade Luz

Re: O fim do PREC

Mensagempor Tovi » Quarta-Feira 28 Novembro 2007, 23:02

Meu caro «Viriato»… O Jaime Neves, na entrevista que fizeste o favor de nos citar, só demonstra que nem sabe o que diz, nem diz o que sabe.

Para a história só ficaram estes seus actos:
:arrow: Em 25 de Abril de 1974, o então Major Jaime Neves comandou a coluna que ocupou o Quartel da Penha da França (Legião Portuguesa), tendo no dia seguinte sido uma dos agrupamentos por si comandados que neutralizou as instalações da Escola Técnica da DGS.
:arrow: Em Julho de 1974 (três meses após a revolução de Abril) com o beneplácito de Otelo Saraiva de Carvalho, foi graduado em Coronel e passou a comandar o Regimento de Comandos da Amadora.
:arrow: Em 25 de Novembro de 1975, obedecendo as ordens de Ramalho Eanes, tem um papel preponderante nas acções militares desenvolvidas contra os chamados “militares comunas”.
:arrow: É a partir desta altura que “se arma” em salvador da Pátria e “manda bocas” a propósito de tudo e de nada.
:arrow: E como todos os que passaram pela família castrense muito bem sabem, militar em que não se pode confiar, é militar “na prateleira”.
http://tovi.blogs.sapo.pt
"Devido à velocidade da luz ser superior à do som, algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos."
Avatar do Utilizador
Tovi
Resmungão
Resmungão
 
Mensagens: 2577
Registado: Terça-Feira 9 Outubro 2007, 21:28
Localização: Porto - Portugal

Re: O fim do PREC

Mensagempor zézen » Quarta-Feira 16 Janeiro 2008, 22:12

http://marius70.blogs.sapo.pt/arquivo/1067353.html

Claro que isto não devia estar neste tópico, mas como o "o 25 de Abril foi assim ...... " está fechado a cadeado, fica aqui. :roll:
a.o.s., foi, é, e serà sempre, um F.D.P.
Avatar do Utilizador
zézen
tem opinião sobre tudo, e sobretudo opinião
tem opinião sobre tudo, e sobretudo opinião
 
Mensagens: 5151
Registado: Sexta-Feira 12 Outubro 2007, 17:10
Localização: Cidade cinzenta

Próximo

Voltar para 25 de Abril

Quem está ligado:

Utilizador a ver este Fórum: Nenhum utilizador registado e 1 visitante

cron