ERA ASSIM...

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Mensagempor zézen » Sexta-Feira 25 Janeiro 2008, 19:53

A Cooperativa Devir (Crónica)

A Cooperativa Devir estava domiciliada ao fundo da Rua Duque de Loulé, do lado direito de quem desce, perto do Marquês de Pombal. A livraria era a razão visível da actividade do que foi uma escola de quadros políticos de esquerda, com predominância do PCP.

Tal como a Livrelco, em Entrecampos, para o MRPP, uma livraria numa das Avenidas Novas, para o PS, e a SEDES, para os desiludidos da primavera marcelista, a Devir era o instrumento de reflexão e aprendizagem política dos seus associados. Por isso, juntava ao comércio livreiro as conferências semanais a cargo de alguns dos mais respeitados intelectuais da época.

Mais de um ano depois do meu regresso da Guerra Colonial fez-me sócio o Jorge, da Damaia, que chegou primeiro. Havia companheiros do Cineclube Imagem, habituais nas manifestações contra a Guerra Colonial e vítimas das cargas policiais, e muitos outros que mantinham activa a Cooperativa e encorajavam quem não acreditava na eternidade da ditadura. A Devir era, aliás, um centro de recrutamento para as bases da CDE e para o próprio PCP como se tornou claro depois do 25 de Abril.

Os colóquios semanais, creio que às terças-feiras, eram o corolário lógico de conferências admiráveis a cargo de sócios ou convidados, com a sala respectiva sempre a abarrotar para ouvir Lindley Cintra, Pereira de Moura, Hugo Blasco Fernandes, Adelino Gomes, Sottomayor Cardia, Sérgio Ribeiro, José Manuel Tengarrinha, Carlos Carvalhas, Ana Maria Alves, César Oliveira, Urbano Tavares Rodrigues e muitos outros, enquanto se ampliava a certeza firmada nos anos doridos da Guerra Colonial: a iminência da derrota militar e da queda do regime.

A PIDE visitava a Cooperativa e apreciava os livros que, com frequência, levava sem pagar, ao contrário dos sócios. Deixava uma espécie de vale com o nome de «Auto de Apreensão», que o saudoso Vítor Branco logo afixava. Geralmente era pacífica a visita e apenas se lastimavam o prejuízo e os livros que não se encontrariam noutro lado. Só uma vez vi os pides, numa das visitas, a perderem a compostura e a vociferarem. Vale a pena contar.

De manhã eu leccionava na escola n.º 44, na Rua da Beneficência, e de tarde exercia, para sobreviver, uma actividade comercial a partir de um escritório na Rua de Entrecampos. Foi aí que uma tarde recebi um telefonema com um lacónico e enigmático «aparece». Com o Metro próximo não tardei a chegar. No local já se encontravam cerca de duas dúzias de sócios, número inusitado durante a tarde, e outros chegaram. Dois pides tinham revistado as várias salas e devassavam já a livraria, tendo na mão folhas de papel de 35 linhas, cheias de nomes seguidos da importância com que cada um contribuíra. Todos conhecíamos aquelas folhas que regularmente assinávamos, com o contributo possível, sob o cabeçalho onde se lia: «Subscrição para apoio às famílias dos presos políticos». Era visível a satisfação dos esbirros, com um deles segurando as folhas que revelavam a rede de solidariedade com as vítimas da repressão fascista.

De repente houve uns encontrões, gerou-se burburinho e ouviram-se gritos de um pide: «quietos, ninguém sai». Um dos esbirros ocupou a porta da livraria e barrou a saída, desvairado por ter deixado surripiar as listas, enquanto o outro mandava levantar os braços e revistava os sócios, constrangido com as mulheres.

Descoroçoados, assaz embaraçados para se atreverem a pedir reforços, desistiram das buscas e das listas de solidariedade com os presos políticos, desaparecidas graças a alguém que calou o mérito e a audácia.

Não tardou que o Dr. Afonso Marchueta, o Governador Civil cujos hilariantes discursos rivalizavam em indigência com os de Américo Tomás, mandasse cessar de imediato todas as actividades e proceder apenas à Assembleia-geral liquidatária da Cooperativa Devir, cuja data teria de ser previamente comunicada ao Governo Civil.

Marcada para o dia habitual dos colóquios, foi enviada aos sócios a convocatória com a ordem de trabalhos precedida de um ponto prévio: «Informações».
Na abertura Francisco Pereira de Moura, Presidente da Assembleia-geral, declarou que, dada a presença de dois comissários da PSP na sala, se recusava a presidir sob coacção policial, convidando-os a retirarem-se. Foi-lhe dito por um dos polícias que tinham ordens para permanecer e assim fariam. Pereira de Moura disse que, face às circunstâncias, não saindo a polícia, saía ele e convidava para o substituir na condução dos trabalhos o sócio presente com o número mais baixo. Esgueirou-se rapidamente a Júlia para que o lugar coubesse ao Lino de Carvalho, depois de verificada pelo silêncio a ausência de sócios mais antigos.

Iniciou-se assim um braço de ferro com o Governo Civil. O Lino, com a coragem e inteligência que possuía logo transformou a reunião num colóquio em que condenou a ilegalidade e prepotência do Governo Civil e, chegada a meia-noite, hora limite para qualquer reunião, encerrou os trabalhos informando que prosseguiriam no mesmo dia e à hora habitual na semana seguinte com a mesma ordem de trabalhos a ser retomada no «ponto prévio».

Nessa reunião repetiu-se o cenário anterior e, à meia-noite, por não se ter esgotado o respectivo ponto da ordem do dia, de novo se adiou a continuação da discussão para a semana que viria. Mas, quando os sócios se dirigiam para essa terceira sessão da Assembleia-geral, encontraram o edifício cercado pelos touros da ganadaria do capitão Maltês, designação que a polícia de choque granjeara, apoiados pelos habituais carros com os depósitos atestados de tinta azul para danificar o vestuário e marcar os fugitivos para eventual detenção, assaltaram e vandalizaram a Devir, agrediram sócios e selaram as instalações na eloquente prova do que era a primavera marcelista.
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Re: ERA ASSIM...

Mensagempor Tovi » Sexta-Feira 25 Janeiro 2008, 20:25

zézen Escreveu:A Cooperativa Devir (Crónica)
(...)
Os colóquios semanais, creio que às terças-feiras, eram o corolário lógico de conferências admiráveis a cargo de sócios ou convidados, com a sala respectiva sempre a abarrotar para ouvir Lindley Cintra, Pereira de Moura, Hugo Blasco Fernandes, Adelino Gomes, Sottomayor Cardia, Sérgio Ribeiro, José Manuel Tengarrinha, Carlos Carvalhas, Ana Maria Alves, César Oliveira, Urbano Tavares Rodrigues e muitos outros, enquanto se ampliava a certeza firmada nos anos doridos da Guerra Colonial: a iminência da derrota militar e da queda do regime.
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Re: ERA ASSIM...

Mensagempor XôZé » Sexta-Feira 25 Janeiro 2008, 20:52

Tiveste pachorra para ler essa cena? :o

Valeu o esforço. :mrgreen:
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Re: ERA ASSIM...

Mensagempor Reboredo » Sexta-Feira 25 Janeiro 2008, 22:27

No Porto a Cooperativa Árvore, em Famalicão a Livraria Júlio Brandão, em Guimarães a Livraria Raul Brandão, em Braga a Livraria Victor, foram escolas de formação cívica, cultural e política que contaram com a participação de muitos democratas que deram a conhecer aos trabalhadores mais esclarecidos do grande Porto e Vale do Ave a arte nas suas diversas expressões,Cinema, Pintura, Escultura, Música, Canto, Bailado, Literatura e Poesia.

Forjaram-se laços de amizade e convívio entre trabalhadores e os seus aliados que permitiram ter esperança para dizer:


O SOL QUANDO NASCE É PARA TODOS


Tovi o Sérgio Ribeiro que tu conheces participou em algumas das iniciativas referidas acima de forma sucinta. O outro Sérgio Ribeiro que eu conheço é este:

http://anonimosecxxi.blogspot.com/


Um abraço,

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Re: ERA ASSIM...

Mensagempor zézen » Quarta-Feira 25 Junho 2008, 09:50

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Domingo, 22.Jun.2008
Ferro em brasa
Posted by Diana Andringa under Filmes
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Um rapazinho negro, criança ainda, marcado a ferro em brasa na testa, por ter perdido uma cabeça de gado. Tratado como gado ele próprio, a marca do proprietário a explicitar esse direito total sobre os seus trabalhadores. A criança olha-nos de frente, sob o oito deitado que lhe sulca a testa. Não nos interroga, não nos julga. Talvez se espante, isso sim, por haver um fotógrafo para a sua dor - que talvez, na sua curta vida, se tenha habituado a ver como normal, que talvez não imagine sequer que pode ser condenada por um homem que, armado de um máquina fotográfica, não teme as armas do patrão da criança.

Não admira, portanto, o título escolhido por Licínio de Azevedo, cineasta brasileiro há muito radicado em Moçambique, para um documentário sobre o autor da fotografia: «Ricardo Rangel, Ferro em Brasa». Um documentário que, para lá do homem, nos mostra a sua circunstância, o Moçambique dos anos pré-independência, esse Moçambique que tantos, ainda hoje, se recusam a ver, preferindo recordar a qualidade de vida da pequena parte da população que representavam.

O Moçambique onde um amigo - branco - de Rangel, desejoso de ser fotografado junto a um negro, se vê em apuros para o conseguir. O fotógrafo recorda os esforços com humor: a câmara preparada, o amigo pronto a, ao ver passar um negro, colocar-se-lhe ao lado - e, um após outro, o escolhido afastar-se, sobressaltado, temendo a má interpretação desse lado a lado com um branco.

É também com humor que conta uma outra história: preso por agressão a um homem casado que perseguia a sua irmã, é alvo, na esquadra, de uma estranha pergunta. «És assimilado ou não és assimilado?», pergunta o agente, terminado o auto de ocorrência. «É que se és assimilado, vais para o calabouço dos brancos; se não és, vais para o dos negros.»

Digam-nos, depois, que nas colónias portuguesas não havia racismo…

«Ricardo Rangel, Ferro em Brasa», passou há pouco em Lisboa, na iniciativa que levou por nome «Os dias do Desenvolvimento». Devia passar muitas vezes, muitas, para que não nos esqueçamos - cada vez que nos apiedamos sobre o Moçambique de hoje - o que era, também era, o Moçambique de então. Ao som de jazz, a música da vida de Ricardo Rangel.

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Re: ERA ASSIM...

Mensagempor zézen » Sábado 2 Janeiro 2010, 00:49

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